quinta-feira, 4 de maio de 2023

FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO

 As disputas em torno da regulamentação das plataformas digitais promoveram alianças inusitadas – mas não há surpresas

Por Gilson Raslan Filho


Nas últimas semanas, assistimos a uma escalada de acontecimentos, cujo palco central foi o Congresso Nacional brasileiro, em torno dos debates para a regulamentação das chamadas big techs, as quase onipresentes plataformas digitais.


Depois de aprovar a urgência para votação do Projeto de Lei (PL) 2630/2020, houve um recuo e o relator do Projeto, Deputado Orlando Silva (PCdoB/SP), pediu, e foi atendido, que a votação na Câmara dos Deputados fosse adiada.


Embora esteja cedo para avaliar as consequências políticas do adiamento, a ação foi considerada uma vitória de alguns atores que, ao fazerem um enorme estardalhaço nas redes sociais, conseguiram dominar o debate público.


Não pretendemos realizar, neste texto, uma análise em torno da necessidade ou dos eventuais perigos representados pelo PL; tampouco nosso objetivo é o esclarecimento sobre os termos do Projeto de Lei (que tem um resumo bastante didático feito pelo Núcleo Jornalismo).


Tampouco desejamos tensionar o debate sobre a guerra de versões - na verdade, um massacre por parte dos opositores da regulamentação. A despeito de o PL ter sido apresentado pelo Senador Alessandro Vieira, do PSDB de Sergipe, em 2020; ter chegado à Câmara do Deputados no mesmo ano e desde então vem sendo debatido na casa; mesmo assim, nas últimas semanas, os opositores conseguiram vincular a ideia de censura ao PL e, mais, que é uma proposta do governo e do “comunista” Orlando Silva para controlar mentes e corações dos “cidadãos de bem”.


Pretendemos, neste momento, realizar algumas reflexões em torno da inusitada, mas não inesperada, aliança para obstruir o debate sobre a óbvia e necessária regulamentação de setor central na vida social contemporânea e cujas regras são apenas aquelas ditadas pela lógica das gigantes da tecnologia e os bilhões arrecadados, sem qualquer transparência, em publicidade digital impulsionada por sensacionalismo, radicalismo, campanhas de ódio – todo tipo de material publicitário que torna o consumidor e o cidadão vulneráveis, numa ameaça óbvia ao estado democrático.



Ao lado de congressistas bolsonaristas, de movimentos fascistas, da bancada evangélica no Congresso (que monopoliza, ruidosamente, a representação do crescente neo-pentecostalismo no Brasil), de produtores de conteúdos de extrema-direita, como o Brasil Pararelo, e de plataformas globais poderosíssimas, como Google, Meta (dona do Facebook e do Instagram) e Spotify, que gastaram rios de dinheiro em campanhas de desinformação para confundir a opinião pública, estiveram no mesmo lado da trincheira alguns auto-denominados jornalistas independentes, que fazem um tipo de jornalismo focado quase exclusivamente em opinião e comentários do que foi noticiado em outros veículos de imprensa quase sempre do mainstream midiático, mas geralmente associados a posições de esquerda.


O argumento dos blogueiros de esquerda era de que o PL privilegiava o financiamento do Grupo Globo e, ao retirar recursos dos pequenos produtores, ameaçava a pluralidade de vozes e dava, especialmente à Globo, o monopólio da verdade.


Texto

Descrição gerada automaticamente


Sem considerar que o argumento desses valorosos combatentes do “jornalismo de esquerda” (e é preciso dizer: são alguns, não todos) é baseado em uma ficção e que eles estão aflitos à toa, uma vez que não há nada no PL que justifique a histeria, parece que a posição evidencia algo mais, digamos, pantanoso.


Numa rápida leitura na maioria desses produtores de conteúdos, é fácil perceber que eles são muito diligentes em publicar comentários gerais, a partir de suposições de fácil identificação ideológica, para um público consumidor ávido em respostas rápidas para suas aflições. Nessa medida, é difícil distinguir, para além do espectro ideológico, a produção “de esquerda” daqueles outros, “de direita”: em ambos, vemos sensacionalismo, teorias conspiratórias, narrativas fantásticas – tudo misturado, com uma finalidade que parece evidente: produzir engajamento e, consequentemente, monetização pelas big techs – algo que já foi abordado pelo Pluris (aqui). E os fatos? Ora, os fatos que lutem!


Engana-se, porém, quem entende que é preciso combater esse tipo de jornalismo, focado em click-baits, em meras iscas para consumidores ávidos - e, por conseguinte, avesso ao exercício pleno da cidadania. Não! Como temos defendido aqui, o jornalismo precisa fazer jornalismo – e cada vez mais atores precisam entrar na arena pública.


Embora não seja pouco a urgência em regulamentar as plataformas digitais, reformar o jornalismo é tão urgente quanto. Do contrário, teremos no máximo uma regulamentação formal, sem efetivo estado democrático.



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Qual é o mundo que nós, jornalistas, transmitimos para os nossos leitores?

 Por Ana Laura Correa,

Muitos jornalistas se gabam de exercer um jornalismo que é o espelho do real. Mas é preciso questionar qual é esse real que transmitimos para os nossos leitores.


Se a matéria-prima do jornalismo são os fatos cotidianos, é preciso estudar e entender sobre a complexidade do mundo para que possamos reportá-los bem para os nossos leitores.


Não trabalhamos aqui, de forma alguma, com a perspectiva de que devemos noticiar os fatos a partir de uma pretensa objetividade. Ao contrário, consideramos que devemos inserir os acontecimentos em uma grande rede de significados.


Afinal, os homicídios registrados em razão das drogas não são um mero acaso sem explicação. As cadeias lotadas também não. A falta de recursos para a saúde e a educação pública não são fatos isolados, mas estão presentes em uma rede que quer, efetivamente, que isso aconteça.


E nesse cenário, você, jornalista, tem bases sólidas para informar considerando todo esse contexto? Ou tem, pelo menos, procurado estabelecer uma base de conhecimento para que possa se dirigir ao seu público?


Depois de formado, você fez a leitura de livros, monografias, dissertações e teses que abordam a atividade jornalística e o seu fazer, além do funcionamento da nossa sociedade? Afinal, o mundo muda a todo instante e o conhecimento é fundamental para que saibamos agir melhor frente às mudanças. Somos profissionais jornalistas que, assim como médicos, advogados, precisam se atualizar para exercer bem a nossa função.


E exercer bem a nossa função não significa simplesmente aprender as mais novas técnicas de marketing, SEO, uso de palavras-chave. É bem mais complexo. É preciso ir além da técnica e trabalhar a leitura de mundo, das desigualdades tão presentes nas notícias que damos todos os dias.


Um exemplo: o Brasil figura entre os maiores produtores de alimento do mundo, mas ainda assim os preços nos supermercados seguem cada dia mais altos, e o número de pessoas passando fome também. O que explica?


Se não soubermos o que explica, o que temos são notícias soltas sem significado que formam leitores que sabem fatos isolados, mas não compreendem o todo, de modo que todo mundo sabe que muita gente passa fome, mas por que passam fome? Como acabar com a fome?


O papel do jornalista é central para trabalhar essas e outras diversas questões. É preciso entender o mundo para noticiar o mundo. Como anda o seu conhecimento de mundo?

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Jornalismo e SEO: uma combinação perigosa

 Por Ana Laura Correa, 

Há algum tempo têm se popularizado os cursos que ensinam SEO para jornalistas e tem se tornado mais notório, também, o uso desses recursos em textos jornalísticos. O SEO engloba um conjunto de práticas que buscam posicionar bem os conteúdos entre os resultados dos mecanismos de buscas, como o Google, por meio, por exemplo, do uso de palavras-chave nos textos.


Por um lado, o uso dessas ferramentas possibilita maior rentabilidade aos veículos on-line. Afinal, são fontes de mais acessos e receitas para esses veículos, já tão precarizados. No entanto, por outro lado, é preciso refletir sobre o uso dessas ferramentas no jornalismo.


Isso porque a atividade jornalística, em sua essência, tem métodos próprios, como a pirâmide invertida, ou a pirâmide "normal", assentada sobre a base, da qual fala Adelmo Genro Filho, que trazem o lead no primeiro parágrafo e o desenvolvimento dos textos segundo os princípios de clareza e simplicidade da narrativa factual.


Além disso, a escolha das pautas e o seu desenvolvimento deveria - em tese - se guiar pelo interesse público, que engloba principalmente a defesa dos direitos fundamentais. Isso é bem diferente da busca por cliques que pode nortear as pautas do jornalismo SEO.


É preciso refletir se, enquanto jornalistas, queremos reforçar um padrão de leitores que busca apenas palavras-chave em nossos textos. Ou se é possível, e em que medida, conjugar técnicas de marketing com o jornalismo, atividades tão distintas, sem que haja perdas expressivas para a descrição do mundo e da sua complexidade.

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